O problema do matematico bebado
Neste post estou saindo completamente do assunto do ultimo post, mas como este ultimo requer mais atencao para continuar, o farei em outra ocasiao.
Este problema que chamei de "O problema do matematico bebado" ja vem me atormentando ha alguns anos, desde que o percebi pela primeira vez e nao encontrei uma resposta.
Sabe-se que toda maquina de turing pode simular outra maquina de turing, isso e' um teorema. E e' este teorema que confere aos computadores uma incomensuravel gama de aplicacoes. Dentre estas aplicacoes, esta a capacidade de fazer calculos algebricos.
O ponto crucial do meu pensamento e' que a maquina de turing e' uma abstracao matematica. Na realidade as leis da fisica impedem que exista uma maquina de turing no sentido formal da definicao.
O mais justo neste caso seria assumir, pelo menos numa primeira aproximacao, nao uma maquina de turing stricto sensu, mas uma maquina de turing estocastica e nao mais sera valido o teorema citado acima. Na melhor das hipoteses, poderemos enfraquecer o teorema de modo que se possa simular uma maquina de turing com uma margem de erro, que eventualmente possa ser tao pequena quanto se queira, mas nunca nula na maquina de turing estocastica.
Sem a versao forte do teorema, a capacidade de se realizar calculos algebricos fica seriamente afetada. Imagine um software, criado para demonstrar teoremas, se este for executado numa maquina de turing usual sua unica fonte de erros sera o proprio codigo, que foi introduzido por um agente externo. Caso o codigo esteja correto, ele sempre produzira respostas corretas.
Se este mesmo software for executado numa maquina de turing estocastica, todas as suas demonstracoes terao uma probabilidade P de estarem corretas e uma probabilidadde 1-P de estarem erradas. Na melhor das hipoteses, poderemos executa-lo varias vezes para tentar reduzir a probabilidade da demonstracao estar errada, mas o fato crucial e' que esta probabilidade nunca sera zero. Do ponto de vista formal isto e' uma catastrofe pois a maquina de turing estocastica nao e' capaz de produzir demonstracoes matematicas inquestionaveis. Na verdade, a palavra demonstracao ja inclui a inquestionabilidade do procedimento. Assim sendo, o correto e' dizer que uma maquina de turing estocastica nao e' capaz de fazer demonstracoes matematicas.
Se este problema e' catastrofico para os computadores, ele o e' para os humanos. Como pode ser possivel uma forma de inteligencia cuja dinamica e' probabilistica ser capaz de conceber a matematica, uma estrutura formal nao probabilistica?
A nao ser que se assuma, como o fez muito ingenuamente Rene Descastes no "Discurso do Metodo", que o homem possui uma nocao natural de "perfeicao", a resposta nao e' muito animadora.
O titulo deste post ameniza de certa forma a seriedade deste problema: um matematico nao precisa estar bebado para ser um sistema probabilistico.
Se procurarmos ao longo da historia da matematica algo que de indicios deste problema encontraremos varios deles. Um exemplo e' o do limite de uma serie de funcoes continuas que durante muitos anos os matematicos achavam ser trivialmente uma funcao continua o que nao e' verdade, apenas se a convergencia for uniforme o limite sera uma funcao continua.
Ate o momento nao sei como resolver este impasse, pois ele sugere que o formalismo matematico seja uma ilusao. Talvez a melhor forma de lidar com este problema seja admitir que e' uma conjectura muito fraca a de que o homem possa ser capaz de conceber uma estrutura formal nao probabilistica e, deste modo, deveriamos enfraquecer certos criterios matematicos.
